(somos dois, deitados no chão da varanda olhando as estrelas, tomando vinho ao som de Ana Carolina )B: – Você gosta mesmo de...
Fabi: - Eu o amo
B: - Pow, você nem pensou!
Fabi: - Quando você precisa parar pra pensar se gosta de alguém é porque não gosta mais, nunca mais.
B: - Bonito isso
Fabi: - Alguém me disse um dia, nunca esqueci
B: - Foi ele?
Fabi: - Não sei
B: - Ele pára pra pensar pra responder?
Fabi: - Não sei
B: - Por que você gosta dele?
Fabi: - Não é da sua conta
B: - Achei que fosse falar ‘não sei’ de novo. Mas você tem razão, não tenho nada com isso
Fabi: - Queria entender porque você se preocupa tanto...
B: - Não é da sua conta
(silêncio)
B: - Eu gosto de conversar com você. Eu me sinto livre para falar do que eu quiser, não sei, é diferente
Fabi: - Deve ser porque você sabe que sempre vai ouvir a verdade de mim, até e principalmente quando o assunto não é da sua conta. E quando eu achar que a verdade não é o suficiente ou simplesmente não cai bem, eu vou ficar quieta. Há sempre o jeito e a hora certa de comunicar
B: - Isso alguém te disse também?
Fabi: - Não, isso eu acabei de inventar para impressionar você.
B: - hahaha Conseguiu. Você é boa no que faz.
Fabi: - O que mais eu sou?
B: - Enigmática
Fabi: - Não sei por que falam tanto isso de mim
B: - Porque você é. É tão fascinante, inteligente, divertida, poética, que as pessoas querem sempre saber cada detalhe, e você não deixa. Eu sou louco para descobrir tudo que se passa aí dentro.
Fabi: - Talvez você se decepcione
B: - Talvez eu me surpreenda
Fabi: - Eu também...
(silêncio)
“Vem pra cá” no som.
B: - Você ama tão profundamente que perto de você eu tenho a sensação de nunca ter amado. Acho que nunca amei.
Tive vontade de dizer, é você não amou. Definitivamente, você sabe quando ama. A primeira vez é extremamente confusa e você só tem consciência do sentimento quando você perde o destinatário do seu amor. Depois dos beijos, das brigas, dos orgasmos, das cumplicidades, das risadas, dos poemas, das fotos, das noites em claro, das garrafas vazias, das marcas, das mentiras, das frustrações. Você só percebe depois que tudo isso passa e o que fica são o respeito e o desejo de felicidade. Você deseja que o outro seja feliz, mesmo longe, mesmo sem você. E você tem uma saudade saudável de saber que você jamais seria como é sem ter vivido tudo aquilo. Porque mesmo sem saber, você se sente imensamente livre, sendo de alguém. E é bom ser de alguém. Você sabe então, amou.
Tive vontade de afagar aquele cabelo loiro e dizer, não tenha pressa. Logo eu, que aprendi a amar desde tão cedo, que explodi nessa intensidade que o fascina agora, mesmo antes de enjoar de brincar com as bonecas, quando dei por mim, eu já estava sentindo. Com todos os sintomas habituais e tão inexplicáveis. Sempre o amor, com o poder de ser e levarmos aos extremos com uma facilidade e velocidade invejada por qualquer raio de luz. O amor lhe torna a pessoa mais incrível do mundo, você se sente tão poderoso e realmente o é, mas lhe torna também a pessoa mais miserável, capaz de implorar qualquer migalha para matar a fome do outro. Você é capaz de rir por qualquer bobagem e chorar até que o mundo pare para te ouvir ou até que você se canse – o mais provável. Você passa a sentir prazer em coisas antes inimagináveis e terá vontade de gritar tantas outras vezes. Você vai querer eternizar aquele sentimento de qualquer jeito, com presentes, com retratos, com palavras, com um filho. E você vai se perguntar como você conseguia viver sem isso? Meu Deus, como? Parece tão vazio sem, parece que você antes nunca foi sozinho. E você vai se desesperar, se preocupar, quebrar copos, vasos e vai mudar de planos, de sonhos e quando o outro simplesmente vai, dói. Dói mesmo, sabe dessas dores que latejam, que ardem, que parecem intocáveis e incurráveis, incompreensíveis? E eu tive vontade de completar dizendo, mesmo depois de tudo isso, você vai querer mais, e sempre mais, muito mais do que deseja amar agora.
Não pude pedir para que ele não tivesse pressa. Eu tenho. Mas quis dizer para que ele tivesse cuidado, que esse sentimento é o que mais vai tirá-lo o chão, você vai querer cometer loucuras, querer se refazer só para ser quem ela sempre sonhou. E ele teria que carregar por toda a sua vida os restos de cada uma das pessoas que ele amou e por vezes isso pesa, pesa muito. E apesar de tudo que gostaria de dizer a ele, eu não sabia nada sobre o amor. Ele poderia muito bem viver tudo de uma forma tão reveladoramente diferente. Poderia ser mais ameno e mesmo assim ser amor. Poderia ser mais leve e aí sim ser amor. Poderia ser mais passional e bastar. Poderia ser despretensioso e válido. Talvez o amor dele fosse tecido de felicidades e distante das perdas, ao contrário dos meus.
Quis dizer que mesmo depois de ter amado sim, a busca não se torna mais fácil e não o reconhecemos logo de cara, pelo contrário. Você teme chamar o amor de amor, ele vem carregado de responsabilidades, de entrega, de permissividades, de desapego a si mesmo, de compaixão, de necessidade de mutação, de adaptação, que você pensa duas, três, mil vezes antes de falar “eu te amo” e por isso mesmo quando você diz, é sempre multiplicado por todas as suas experiências passadas, todos os erros feitos, todas as falhas, todos os indícios de fracasso. Você se cobra tanto mais para que dê certo, para que finalmente seja aquele o seu amor. Tudo se intensifica tanto, tanto e mais, mais. Todas aquelas promessas de nunca mais amar ninguém, de jamais se entregar novamente daquele jeito, de viver uma vida de esbórnia e vulgaridades, desaparecem.
Eu quis dizer tudo isso a ele, mas não disse. Eu deixei que ele doesse em silêncio, enquanto todos os meus amores passados gritavam suas saudades e tristezas na minha lembrança....
(somos dois, deitados no chão da varanda olhando as estrelas, tomando vinho e com razões suficientemente fortes para chorar...)