
Amado Henry,
Há quanto tempo não lhe escrevo. Perdoe a tia! Talvez entre as linhas desta carta você entenda meus motivos. Estava eu pronta para lhe escrever fervorosamente sobre a necessidade de quebra com tradições que soam por demais retrógradas. Os argumentos estavam todos engatilhados. Todos colhidos ao meu olhar atento, ou talvez só e apenas – cabe a redundância – convenientemente seletivo, ao redor de tudo, no centro de nada. Voltando pra casa em um entardecer qualquer, não me encantei com as luzes pisca-pisca nas varandas dos apartamentos de classe alta de São Conrado, bairro nobre do Rio de Janeiro. Não me encantei com as decorações temáticas, nem com árvore de Natal flutuando na Lagoa. O que na minha infância me fazia brilhar os olhos, se apagou em algum lugar lá atrás. Com isso fui o Elevado do Joá inteiro pensando no significado – ou falta de – do Natal. Ao chegar na Rocinha, do outro lado, há alguns poucos minutos dali, vi moradores conversando, oferecendo e dividindo um salgado com os homens de preto do Bope. Em paz. Sorrindo. Ambos os lados. Aquilo me tocou e eu sorri. Logo mais a frente, em uma banca de jornal, várias pessoas, de diferentes classes sociais (visível pela roupa e forma de se portar), dividiam a atenção em uma mesma manchete: o ex-presidente Lula careca após quimioterapia para tratar de um câncer. A expressão de todos era uma só. E tenho quase certeza que nem todos ali eram eleitores petistas. Porém, estava nítido o mesmo sentimento. Solidariedade com o sofrimento, a dor alheia. Aquilo também me tocou. Então me armei dos meus melhores argumentos – e sentimentos – e estava pronta para dissertar sobre signos, significantes e toda essa coisa de semiótica. Não. Estava pronta para lhe incentivar a lutar para redefinir as coisas. Para acabar com as tradições e isso de luzes piscando em uma época que energia gera discussões e vídeos em defesa do meio ambiente e radicalmente contrárias a construção de uma hidrelétrica. Estava pronta para discursar sobre a necessidade de mandar tudo às favas e reinventar sentidos, meios e cultura, no mais denotativo da palavra. Queria instigar em você a revolução, a quebra de paradigmas, o rompimento com as convenções e todo esse papo muito ativista. Queria que você estivesse disposto a romper com todo esse modelo. Querer um Papai Noel mais magro, com tatuagem e enviando presentes com um clique na internet. Que a cor da paz mude pra preto, cor do Bope e do Rock e que devolvêssemos a palavra política seu verdadeiro sentido, hoje em dia tão impregnado e confundido com um outro: politicagem. Pirar sua mãe e ela querer me matar. Até que essa mesma personagem, sua mãe, mudou tudo. Ela me contou que estava preocupada com você porque em dado momento, enquanto ela lia uma revista você quis a atenção dela. Pois bem, até aí. Ela então te colocou no colo e passou a folhear a revista lhe mostrando e ... você odiou. Ela me contou que não sabia se ria ou chorava ao ver que você “apertava” as páginas na expectativa de alguma coisa interativa saltar dali e quando nada acontecia você se frustrou e se irritou. “Deixei ele muito tempo com o iPad”, ela mesma concluiu. Ali meus argumentos foram deletados, assim mesmo, mais moderno. Pluft. Sumiu. Eu quis matar sua mãe. Você tem que aprender a lidar com o papel, a virar página, a lamber o dedo para desgrudar as folhas, a manusear livros, apostilas, revistas, jornais , conferir o número da página, sentir o cheiro, a textura... e as minhas cartas? Caraca, e as minhas cartas?!? Você vai fazer o que? Jogar fora e ainda me dar uma bronca daquelas porque matei árvores para fazer papel, “que coisa antiquada e ambientalmente incorreta, tia”. Não, não! Com essa tradição fique, por favor. Não posso. Não tenho como estabelecer o certo e o errado, o que deve ficar ou mudar. Não posso proferir tantos paradoxos. Como diz uma música aqui do Brasil que faz muito sucesso há anos e é uma tradição brasileira: “o futuro já começou...” e ele é você Henry. E eu já sou um tanto de passado e uma tentativa de presente. Espero ansiosamente suas respostas, porque já tenho dezenas de perguntas que só você poderá responder mesmo sem sequer falar muito bem ainda. Com isso meu pequeno, só posso lhe desejar um Feliz Natal! Com muita neve, um bom velhinho muito gordo e generoso e que as luzes despertem em você um brilho esfuziante de quem tem gana por um mundo melhor, seja ele como for... porque eu já não tenho ideia de como será.
Eu te amo, não falo pra você se cuidar porque você é muito tico pra isso, deixa que a gente cuida... mesmo sem saber muito como fazer isso...
Tia Fabi.
Henry tem 3 anos e provavelmente vai demorar pelo menos uns 15 para entender uma carta como essa. Talvez ele seja muito futuro e nós o que somos? Quais perspectivas vamos deixar para crianças como ele? Que mundo estamos construindo? Que tipo de escolhas eles terão? É clichê, mas quando ganhamos um filho ou um afilhado, sobrinho, pequenos assim e que a gente ama tanto, isso nos salta de uma forma muito assustadora e imediata. Que nesse Natal nós, já capacitados e instruídos, possamos trabalhar e esmerar caminhos mais seguros, mais saudáveis, mais sustentáveis e mais solidários para esse futuro que insiste em se aninhar em nossos braços e dormir tranquilos mesmo com o caos lá de fora. É o meu pedido e desejo de Natal para todos vocês. Sejam felizes e ... cuidem-se.



3 comentários:
o melhor presente q dei pro meu filho foi vc, dig e repito
quer ter um filho comigo?
Isto aqui também me tocou.
E eu sorri.
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