
Quer ser meu amante? Na verdade, já deveria ter lhe proposto isso, desde o começo. Talvez assim eu não estivesse esperando você chegar. Ou estivesse, mas sem angústia. Os amantes possuem essa capacidade de abstração, já reparou? Reparou na ausência de cobranças, na cumplicidade de se saberem criminosos juntos? Como amantes poderíamos compartilhar qualquer tipo de segredo sujo, de desejo amoral, de sentimento confuso, de marcas incuráveis, de experiências traumáticas, de fantasia insana. Não quero ser sua amante para ser a outra. Quero ser sua amante para ser a que te ama e que se sabe amada sem o compromisso do para sempre, com a intensidade do proibido, com a iminência da descoberta, com o pacto com o pecado. Quero ser sua amante com a consciência de que não serei a primeira, nem a última, mas certamente a única em todas as minhas especificidades. No jeito de te olhar, te tocar, te escutar. No meu cheiro, meu gosto, minha cor, meus gemidos e sussurros, no meu gozo. Não importa quantos outros amores você vai viver depois ou viveu antes, importa é que tivemos a chance de construir um nosso. E mesmo se em algum momento ele não for a sua prioridade, ele nunca deixará de existir, quem sabe um dia você volte – enquanto isso eu serei de outros, você de outras – e quando nos encontrarmos, totalmente acrescidos de diferentes formas de amar, a gente conversa, se reinventa, se mistura mais uma vez. Nem que seja mais nas palavras do que na cama. Amantes não falam de sua vida para os outros, eles se calam ao serem perguntados sobre o amor, colocam no canto da boca um sorriso de satisfação e se deliciam silenciosamente com suas lembranças íntimas, intransferíveis, intocáveis. Para ser sua amante eu abdico de ter filhos ou os tenho e lhes conto o quanto eu amei alguém um dia. Se eles se incomodarem por esse amor não ser pelo pai deles eu os coloco no colo e digo que fiz o melhor que pude enquanto invento uma nova canção de ninar, espero que eles cresçam e desvendem sozinhos esses caminhos complexos do amor. Se um dia eu os tiver eles terão muito de você, como sei que se um dia você os tiver eles terão muito de mim também. Em nossas semelhanças e trocas não seremos um em apenas um fruto constituindo de uma metade sua, outra minha. Seremos vários constituindo pessoas com ambivalências que os tornarão mais perfeitos do que possamos prever. Não preciso abrir mão de nenhum anseio meu para ser sua amante, nem você dos seus. Eu te deixo ir sempre que quiser e vou sempre que tiver vontade, sem temer perder o que deixei para trás, sem monopolizar esse ser tão digno de amor que é você. Eu simplesmente me renderia ao nosso amor quando olhasse para você de novo, porque sempre que faço isso as outras coisas ficam tão pequenas, tão absurdamente desfocadas. O que atrapalha são as expectativas, que na maioria das vezes são mais dos outros do que nossas, e nos empurram violentamente um contra o outro ao invés de nos envolver sem nos atar, para que resulte na consolidação harmônica de um relacionamento duradouro. Quem sabe assim eu saberia viver sem você e você sem mim e embora as dores não fossem totalmente aniquiladas elas ao menos se tornariam mais fáceis de serem transpostas. Eu viveria melhor com a possibilidade de te ver novamente entrar por essa porta e me amar como se fosse a primeira e última vez, como quem viaja e reaparece de surpresa, sedento de saudade, sabendo ser aquela a única fonte capaz de saciar o desejo. É por isso que eu quero ser sua amante,
Ainda e sempre,
Beijos, pelo corpo...
Fabi Mariano
Fabi Mariano



8 comentários:
onde assina?
Fabi, minha filha, pra quem você escreveu isso??!?!??!??
Precisa perguntar???
AINDA e sempre?
vc me fez ter calafrios. Eu casei Fabi! Pega leve.
Coisas tão lindas que você escreve, que é difícil comentar com palavras... tinha que ser um comentário em filme...
[trilha sonora: “Românticos”, de Vander Lee, versão interpretada por Rita Ribeiro. Usar 1 minuto de música, exatamente do começo ao final da letra. Se preciso acelerar um pouco o andamento para chegar a esse tempo. Produzir versão em que em vez de cantar “sem juízo”, ela cante “com juízo”.]
(Fade in rápido. Cena 1 (10s): Homem em big close, olhando para o lado direito em relação ao fotógrafo. Muito contraluz, a ponto de tornar indefinido o pouco do fundo que possa ser revelado. Key light soft deslocado para a esquerda da câmera, de modo que quase somente um lado do rosto fica iluminado. Pouco fill light, baixo, rebatido, frontal à posição do rosto. Em câmera lenta de 120 fps, ele pisca os olhos, e somente depois de abri-los começa a movimentar a cabeça na direção da câmera. Além do giro, a cabeça também sobe um pouco para os olhos encontrarem a objetiva. Depois que completa o movimento, com a boca entreaberta, ele fecha os lábios num sorriso de cumplicidade com a câmera. Os olhos ficam ‘semicerrados’ durante o sorriso. Além de cumplicidade, o sorriso tem algo de constrangimento fingido. Corte seco. Cena 2 (50s): Plano de detalhe de pés caminhando na areia. Câmera baixa, os pés já aparecem em movimento desde o começo. A câmera está posicionada por trás da pessoa, de modo que o primeiro plano é dos calcanhares. Logo no segundo ou terceiro passo, grua sobe em zoom out para plongè vertical lento, que aos poucos revela as pernas de uma mulher, que continua caminhando em direção ao mar. Ela usa só um short jeans, corpo bronzeado, cabelos longos. Conforme a câmera vai subindo e abrindo um grande plano geral, vê-se que a praia está vazia, sem mais ninguém. Revela-se a Baía da Guanabara, com algum ponto emblemático da paisagem. Não se vê nenhum carro, nenhuma pessoa, nenhum barco, nada, como se só existissem no mundo a praia, o mar, e ela. Fade out lento. O último verso da música, "romântico é uma espécie em extinção", toca já na tela escura.)
Depois de você. As outras.
Ui! rs essa Fabi!
Quando a dor amor chega prazer..
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